O dia 18 de Maio, dia da ecografia de controlo após a FIV, foi particularmente difícil. Atendendo ao desfecho de todo o processo, confesso que já temia ouvir por parte do médico o que efectivamente ouvi, mas a diferença entre imaginar que pudesse ouvir essas palavras e ouvi-las na realidade foi abismal, pelo menos no que respeita ao seu efeito, à forma como estilhaçou em mim a réstia de esperança que ainda se mantinha.
Os dias seguintes foram passados numa luta entre a vontade de aterrar no sofá, à espera que a tempestade passasse e tudo isto não tivesse passado de um sonho mau, e a necessidade de reagir, de acordar de manhã e fazer os sessenta quilómetros diários para ir para a escola, colocar-me em frente de turmas de trinta adolescentes que precisam de alguém enérgico e motivado à sua frente para a motivação deles se manifestar, também. É tão difícil ser professor/actor em momentos em que a vontade é a de estar no fundinho da sala, em silêncio, como mero espectador passivo, à espera que a aula passe...
É óbvio que a meu semblante não enganava, o meu olhar deixava transparecer os estilhaços da alma. Na sala de professores, alguns mais próximos e mais "ousados" iam timidamente perguntando porquê. A minha resposta era invariavelmente "não quero falar para não chorar", mas ia falando, por entre lágrimas que teimosamente escapavam. Num destes momentos, entrou a Vânia, uma colega do Porto, com a qual nem tinha grandes conversas, mas que se foi apercebendo da situação, como todos os que se sentavam à mesma mesa que eu durante os intervalos. Interrompe-nos para dizer: "há um médico no Porto conhecido por fazer milagres!". Quando ela o disse, pensei de imediato que se referia àquele que me havia acompanhado, pois as referências eram tão boas, inclusive tinha sido ele o "autor" de algumas gravidezes de colegas lá da escola. É impressionante o número de casos de casais próximos que tiveram ou têm de recorrer à PMA para concretizarem a vontade de serem pais. Nunca imaginei que aquilo que é a lei natural da vida se revelasse tão cheio de labirintos para tanta gente. Sem grande entusiasmo, pedi-lhe o número de telefone. Não tinha mais nada a perder. Ela continuou referindo o caso de uma amiga, médica no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, que tinha recorrido a este "milagreiro" para engravidar, e já ia na terceira gravidez. Confesso que não fiquei muito entusiasmada, mas ela ficou de tentar obter o contacto da clínica para me dar. Fomos para a aula e horas depois ela enviou-me um mail com os dados. Referiu, também, que a clínica tinha uma página no Facebook, pelo que poderia tentar obter mais referências.
Clínica de São Cipriano - Dr. Cipriano Oliveira - Porto. Num primeiro momento, associei este nome, São Cipriano, ao mundo do oculto, do sobrenatural, pela associação ao Livro de S. Cipriano, imagine-se! A página do Facebook, que tive curiosidade em visitar, está muito "familiar", aliás como o consultório, como descreverei a seguir, repleta de fotografias e vídeos do Dr. Cipriano no momento em que traz os "seus rebentinhos" ao mundo. Marquei consulta para dia 28 de Maio, daí a uma semana.
Dia 25 de Maio foi o primeiro dia do segundo ciclo menstrual após a FIV, pelo que no dia da consulta estava no quarto dia do ciclo. Segundo o que li, só é aconselhável repetir uma FIV cerca de cinco ciclos depois da última, pelo que encarei esta consulta como uma mera "apresentação do caso" ao médico para ouvir o seu veredicto. No momento de sair da Vila Real, a consulta era ao meio-dia, pelo que esperava-nos cerca de uma hora de viagem, tive mais um "piripaque", dos tão frequentes ultimamente. Já à saída de Vila Real, voltei para trás. Não queria ir, queria desistir. Não queria ouvir novamente um "não". Chorei, "esperneei", disparatei com o Pedro. Entre soluços, só repetia que queria desistir e aceitar o que a Mãe Natureza havia reservado para nós. O Pedro deixou-me desabafar, deixou que toda esta tensão se esvaísse entre lágrimas e soluços e foi peremptório, uma vez mais: vamos! À saída de Vila Real ligou para a clínica, pois não conseguiríamos chegar à hora marcada e pediu para adiar a consulta para a tarde.
Às 14 horas desse dia, em plena Avenida Fernão Magalhães, encontrámos um letreiro modesto a identificar a clínica. No interior, um primeiro andar que mais parecia uma acolhedora casa de família, sobretudo quando comparada com a clínica que havia frequentado nos últimos meses. Imensas fotografias, nos móveis e nas paredes, dos vários rebentinhos "feitos" com recurso medicação do Dr. Cipriano. Enquanto éramos atendidos na recepção, pela Dª Esmeralda, a "faz tudo" da clínica, entrou o médico e nós fomos os seus primeiros pacientes da tarde.
Atendendo à especificidade e particularidade desta consulta, merece um post inteiramente dedicado a ela, pelo que será o próximo. Por hoje, apenas mais uma pequena reflexão. Mesmo para quem não é crente nem acredita em milagres de qualquer espécie, em momentos de desalento e descrença na ciência, não se descarta qualquer hipótese. Pelo que adianto apenas que saí daquele consultório com a esperança renovada. E isso, só por si, fez-me sorrir novamente.
Atendendo à especificidade e particularidade desta consulta, merece um post inteiramente dedicado a ela, pelo que será o próximo. Por hoje, apenas mais uma pequena reflexão. Mesmo para quem não é crente nem acredita em milagres de qualquer espécie, em momentos de desalento e descrença na ciência, não se descarta qualquer hipótese. Pelo que adianto apenas que saí daquele consultório com a esperança renovada. E isso, só por si, fez-me sorrir novamente.
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