terça-feira, 7 de julho de 2015

Um 2015 cheio de surpresas, nem sempre boas

     Com a entrada em 2015, trouxe comigo de Angola não uma gravidez, mas uma valente gastroenterite. Tive de recorrer ao hospital, no dia 04 de Janeiro, pois não conseguia manter qualquer alimento no estômago, com vómitos e diarreia constantes. No hospital, alertei para a possibilidade de poder estar grávida, para assim ajustarem a medicação. Não estava. Mais uma desilusão.
     Atendendo às últimas palavras da minha ginecologista, "se não vier grávida em Janeiro, passamos para o plano B...", não havia muito mais a adiar. Eu ainda tentei protelar uns dias, já que o Pedro viria em Fevereiro e eu queria esperar por ele para irmos a uma clínica especializada no acompanhamento de casais inférteis. Mas ele - e hoje dou graças por o ter feito - decidiu não me dar ouvidos e marcou ele a consulta, a partir de Angola. Depois de alguma pesquisa na Internet, na busca de opiniões e sugestões, e com a concordância da minha ginecologista, essa consulta foi marcada para a Clínica do Prof. Alberto Barros, no Porto, consensualmente referida como uma das melhores no acompanhamento de casais como nós.
     Ainda em Janeiro, e sozinha, fui à primeira consulta. A primeira pergunta do Prof. Alberto Barros foi precisamente o porquê de ir sozinha, já que é normal ser o casal a deslocar-se em conjunto. Em Portugal, não é permitido o recurso à procriação medicamente assistida a mulheres solteiras, pelo que não estranhei a pergunta do médico, na tentativa de salvaguardar esta questão. A panóplia de exames, meus e do Pedro, que então lhe apresentei eliminaram qualquer suspeita. 
     Desde Agosto que vínhamos a ser acompanhados nos serviços de apoio à fertilidade do Hospital de Vila Real, onde realizámos vários exames. No entanto, em Novembro, depois de ter ultrapassado a barreira dos "39 anos e 364 dias", as regras mudariam, e o acesso às técnicas da PMA passaria a ser-nos vedado. E pensando bem, se no nosso caso o factor tempo era determinante, atendendo a que eu já praticamente não ovulava - o que se agravaria com o passar do tempo - estar dependente do SNS também não seria a melhor das opções, pelos meses de espera. Apenas um pequeno exemplo do que digo: ainda em Vila Real, um dos exames realizados foi aos cariótipos. Repeti este exame, por prescrição do Prof. Alberto Barros, em Fevereiro, no serviço de genética da Faculdade de Medicina do Hospital de S. João, no Porto. Cerca de duzentos euros (o primeiro, em Vila Real, foi gratuito) e quinze dias depois, o resultado estaria pronto. E com mais surpresas, que referirei a seguir. Os resultados - idênticos - do exame realizado em Vila Real só ficariam prontos meses depois, já em Abril, precisamente uma semana depois de ter concluído todo o processo para uma FIV na clínica particular, no Porto, altura em que fui convocada para uma consulta nos serviços de genética do Hospital de Vila Real. 
     Depois de tudo o que já tínhamos vindo a ter como entraves à concretização do nosso desejo, eis que surge mais uma surpresa. Resultado do exame aos cariótipos: os do Pedro perfeitamente normais, já os meus, "translocação, aparentemente equilibrada, entre os cromossomas 5 e 9". O que é que isto significava? Até ao momento de ida à consulta, tentei pesquisar na net, mas não conseguia nenhuma informação conclusiva sobre o que isto significava, apenas nomes estranhos de doenças ainda mais estranhas associadas a deficiências cromossomáticas. Decidi deixar de procurar ou ficaria louca com tanta informação e tão má.
     Aquando da primeira consulta na clínica do Prof. Alberto Barros, a solução mais aconselhável para o nosso problema foi a do recurso a uma FIV - Fertilização in vitro. Seria esse o nosso próximo passo. O Pedro regressou de Angola em Fevereiro e o processo passou a desenrolar-se já com os dois juntos. No entanto, para que todo este processo pudesse ser concretizado da melhor forma, seria necessária a presença do Pedro em Portugal nos próximos tempos. Havia que tomar mais uma grande e difícil decisão no campo pessoal: o regresso definitivo do Pedro a Portugal. Depois de várias hipóteses em cima da mesa, optámos pela que nos pareceu mais lógica. O Pedro regressaria a Angola no início de Março e falaria com a sua entidade patronal para rescindir contrato ao final de um mês e vir definitivamente para junto de mim, para em conjunto conseguirmos levar este processo tão desgastante para o casal a bom porto. Assim foi, dia 26 de Março ele aterraria no Porto para ficar.
     Juntos, percorremos todas as etapas que envolvem o processo de uma FIV. A questão da translocação entre os dois cromossomas seria mais um fantasma a ensombrar a nossa vontade. No caso de conseguir engravidar, havia cerca de trinta por cento de hipóteses de ser uma gravidez/feto com problemas. Mas, ainda assim, decidimos avançar. A fé de que tudo correria bem falou mais alto. Depois de semanas de medicação para estimular os níveis de ovulação, com Dufine, Estrofem e injecções com preços proibitivos, os resultados não foram os esperados. É comum, com este tipo de medicação, haver vários óvulos para recolha, oito, nove, ou mais. Eu só consegui ter dois. E desses dois, após a punção e a fertilização com recurso à microinjecção intracitroplasmática, apenas um deles evoluiria normalmente, pelo que no momento da transferência apenas foi transferido esse sobrevivente. As probabilidades de sucesso eram tão ínfimas que, após a transferência, o Professor Alberto Barros foi ter connosco (após a primeira consulta, todo o processo até este momento foi acompanhado por outros dois médicos da sua equipa) e usou uma expressão que me marcou, algo do género "se engravidar, não será um milagre, mas é muito difícil que isso venha a acontecer." 
     Faz parte do papel de um médico não nos dar falsas esperanças e ele cumpriu o seu papel com todo o rigor. Saí da clínica com um misto de esperança - 10% - e de descrença - 90%. Pensar positivo ajudava, pelo que me esforçava por assim ser, mas perante o cenário descrito era difícil. 12 dias de espera, o repouso e todos os cuidados não trouxeram o resultado desejado. A FIV não resultou e não estava grávida. Cerca de cinco mil euros e quatro meses depois, mais um resultado negativo. A esperança começava a morrer aos poucos.
     As FIV nem sempre resultam à primeira - era a expressão mais ouvida por parte daqueles que estavam a par de todo o processo. Ao contrário de muitos casais, que preferem resguardar-se, eu sentia necessidade de falar sobre o assunto com os que me rodeavam, com os mais próximos, pelo que muita gente estava a par do processo. E o que mais me doía era a indiferença de muitos, sobretudo daqueles de quem não esperava tal. Queria falar sobre o assunto, partilhar, ouvir outros testemunhos, ter conhecimento de casos de sucesso, para conseguir manter a esperança. 
     Decididos a repetir o processo, fomos à ecografia de controlo, cerca de um mês depois da FIV. Comigo estava tudo bem. Mas as palavras do médico derrubaram-me por completo. Tanto que penso ter sido mais afectada do que nos momentos anteriores em que fui tomando consciência de toda esta situação. Atendendo ao desenrolar de todo o processo anterior, nomeadamente à muito baixa resposta por parte dos meus ovários a tanta estimulação, ele não nos incentivava a repetir, atendendo a que as probabilidades de sucesso eram tão ínfimas que não aconselhava a "desperdiçar" mais cinco mil euros. Desta vez, a esperança ficou moribunda, em coma profundo. 
     Como se lida com o fim da esperança?   
          
     

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