terça-feira, 14 de julho de 2015

O médico que "faz milagres"

     O dia 18 de Maio, dia da ecografia de controlo após a FIV, foi particularmente difícil. Atendendo ao desfecho de todo o processo, confesso que já temia ouvir por parte do médico o que efectivamente ouvi, mas a diferença entre imaginar que pudesse ouvir essas palavras e ouvi-las na realidade foi abismal, pelo menos no que respeita ao seu efeito, à forma como estilhaçou em mim a réstia de esperança que ainda se mantinha.
     Os dias seguintes foram passados numa luta entre a vontade de aterrar no sofá, à espera que a tempestade passasse e tudo isto não tivesse passado de um sonho mau, e a necessidade de reagir, de acordar de manhã e fazer os sessenta quilómetros diários para ir para a escola, colocar-me em frente de turmas de trinta adolescentes que precisam de alguém enérgico e motivado à sua frente para a motivação deles se manifestar, também. É tão difícil ser professor/actor em momentos em que a vontade é a de estar no fundinho da sala, em silêncio, como mero espectador passivo, à espera que a aula passe...
     É óbvio que a meu semblante não enganava, o meu olhar deixava transparecer os estilhaços da alma. Na sala de professores, alguns mais próximos e mais "ousados" iam timidamente perguntando porquê. A minha resposta era invariavelmente "não quero falar para não chorar", mas ia falando, por entre lágrimas que teimosamente escapavam. Num destes momentos, entrou a Vânia, uma colega do Porto, com a qual nem tinha grandes conversas, mas que se foi apercebendo da situação, como todos os que se sentavam à mesma mesa que eu durante os intervalos. Interrompe-nos para dizer: "há um médico no Porto conhecido por fazer milagres!". Quando ela o disse, pensei de imediato que se referia àquele que me havia acompanhado, pois as referências eram tão boas, inclusive tinha sido ele o "autor" de algumas gravidezes de colegas lá da escola. É impressionante o número de casos de casais próximos que tiveram ou têm de recorrer à PMA para concretizarem a vontade de serem pais. Nunca imaginei que aquilo que é a lei natural da vida se revelasse tão cheio de labirintos para tanta gente. Sem grande entusiasmo, pedi-lhe o número de telefone. Não tinha mais nada a perder. Ela continuou referindo o caso de uma amiga, médica no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, que tinha recorrido a este "milagreiro" para engravidar, e já ia na terceira gravidez. Confesso que não fiquei muito entusiasmada, mas ela ficou de tentar obter o contacto da clínica para me dar. Fomos para a aula e horas depois ela enviou-me um mail com os dados. Referiu, também, que a clínica tinha uma página no Facebook, pelo que poderia tentar obter mais referências.
     Clínica de São Cipriano - Dr. Cipriano Oliveira - Porto. Num primeiro momento, associei este nome, São Cipriano, ao mundo do oculto, do sobrenatural, pela associação ao Livro de S. Cipriano, imagine-se! A página do Facebook, que tive curiosidade em visitar, está muito "familiar", aliás como o consultório, como descreverei a seguir, repleta de fotografias e vídeos do Dr. Cipriano no momento em que traz os "seus rebentinhos" ao mundo. Marquei consulta para dia 28 de Maio, daí a uma semana. 
     Dia 25 de Maio foi o primeiro dia do segundo ciclo menstrual após a FIV, pelo que no dia da consulta estava no quarto dia do ciclo. Segundo o que li, só é aconselhável repetir uma FIV cerca de cinco ciclos depois da última, pelo que encarei esta consulta como uma mera "apresentação do caso" ao médico para ouvir o seu veredicto. No momento de sair da Vila Real, a consulta era ao meio-dia, pelo que esperava-nos cerca de uma hora de viagem, tive mais um "piripaque",  dos tão frequentes ultimamente. Já à saída de Vila Real, voltei para trás. Não queria ir, queria desistir. Não queria ouvir novamente um "não". Chorei, "esperneei", disparatei com o Pedro. Entre soluços, só repetia que queria desistir e aceitar o que a Mãe Natureza havia reservado para nós. O Pedro deixou-me desabafar, deixou que toda esta tensão se esvaísse entre lágrimas e soluços e foi peremptório, uma vez mais: vamos! À saída de Vila Real ligou para a clínica, pois não conseguiríamos chegar à hora marcada e pediu para adiar a consulta para a tarde.
     Às 14 horas desse dia, em plena Avenida Fernão Magalhães, encontrámos um letreiro modesto a identificar a clínica. No interior, um primeiro andar que mais parecia uma acolhedora casa de família, sobretudo quando comparada com a clínica que havia frequentado nos últimos meses. Imensas fotografias, nos móveis e nas paredes, dos vários rebentinhos "feitos" com recurso medicação do Dr. Cipriano. Enquanto éramos atendidos na recepção, pela Dª Esmeralda, a "faz tudo" da clínica, entrou o médico e nós fomos os seus primeiros pacientes da tarde.
     Atendendo à especificidade e particularidade desta consulta, merece um post inteiramente dedicado a ela, pelo que será o próximo. Por hoje, apenas mais uma pequena reflexão. Mesmo para quem não é crente nem acredita em milagres de qualquer espécie, em momentos de desalento e descrença na ciência, não se descarta qualquer hipótese. Pelo que adianto apenas que saí daquele consultório com a esperança renovada. E isso, só por si, fez-me sorrir novamente.          

terça-feira, 7 de julho de 2015

Um 2015 cheio de surpresas, nem sempre boas

     Com a entrada em 2015, trouxe comigo de Angola não uma gravidez, mas uma valente gastroenterite. Tive de recorrer ao hospital, no dia 04 de Janeiro, pois não conseguia manter qualquer alimento no estômago, com vómitos e diarreia constantes. No hospital, alertei para a possibilidade de poder estar grávida, para assim ajustarem a medicação. Não estava. Mais uma desilusão.
     Atendendo às últimas palavras da minha ginecologista, "se não vier grávida em Janeiro, passamos para o plano B...", não havia muito mais a adiar. Eu ainda tentei protelar uns dias, já que o Pedro viria em Fevereiro e eu queria esperar por ele para irmos a uma clínica especializada no acompanhamento de casais inférteis. Mas ele - e hoje dou graças por o ter feito - decidiu não me dar ouvidos e marcou ele a consulta, a partir de Angola. Depois de alguma pesquisa na Internet, na busca de opiniões e sugestões, e com a concordância da minha ginecologista, essa consulta foi marcada para a Clínica do Prof. Alberto Barros, no Porto, consensualmente referida como uma das melhores no acompanhamento de casais como nós.
     Ainda em Janeiro, e sozinha, fui à primeira consulta. A primeira pergunta do Prof. Alberto Barros foi precisamente o porquê de ir sozinha, já que é normal ser o casal a deslocar-se em conjunto. Em Portugal, não é permitido o recurso à procriação medicamente assistida a mulheres solteiras, pelo que não estranhei a pergunta do médico, na tentativa de salvaguardar esta questão. A panóplia de exames, meus e do Pedro, que então lhe apresentei eliminaram qualquer suspeita. 
     Desde Agosto que vínhamos a ser acompanhados nos serviços de apoio à fertilidade do Hospital de Vila Real, onde realizámos vários exames. No entanto, em Novembro, depois de ter ultrapassado a barreira dos "39 anos e 364 dias", as regras mudariam, e o acesso às técnicas da PMA passaria a ser-nos vedado. E pensando bem, se no nosso caso o factor tempo era determinante, atendendo a que eu já praticamente não ovulava - o que se agravaria com o passar do tempo - estar dependente do SNS também não seria a melhor das opções, pelos meses de espera. Apenas um pequeno exemplo do que digo: ainda em Vila Real, um dos exames realizados foi aos cariótipos. Repeti este exame, por prescrição do Prof. Alberto Barros, em Fevereiro, no serviço de genética da Faculdade de Medicina do Hospital de S. João, no Porto. Cerca de duzentos euros (o primeiro, em Vila Real, foi gratuito) e quinze dias depois, o resultado estaria pronto. E com mais surpresas, que referirei a seguir. Os resultados - idênticos - do exame realizado em Vila Real só ficariam prontos meses depois, já em Abril, precisamente uma semana depois de ter concluído todo o processo para uma FIV na clínica particular, no Porto, altura em que fui convocada para uma consulta nos serviços de genética do Hospital de Vila Real. 
     Depois de tudo o que já tínhamos vindo a ter como entraves à concretização do nosso desejo, eis que surge mais uma surpresa. Resultado do exame aos cariótipos: os do Pedro perfeitamente normais, já os meus, "translocação, aparentemente equilibrada, entre os cromossomas 5 e 9". O que é que isto significava? Até ao momento de ida à consulta, tentei pesquisar na net, mas não conseguia nenhuma informação conclusiva sobre o que isto significava, apenas nomes estranhos de doenças ainda mais estranhas associadas a deficiências cromossomáticas. Decidi deixar de procurar ou ficaria louca com tanta informação e tão má.
     Aquando da primeira consulta na clínica do Prof. Alberto Barros, a solução mais aconselhável para o nosso problema foi a do recurso a uma FIV - Fertilização in vitro. Seria esse o nosso próximo passo. O Pedro regressou de Angola em Fevereiro e o processo passou a desenrolar-se já com os dois juntos. No entanto, para que todo este processo pudesse ser concretizado da melhor forma, seria necessária a presença do Pedro em Portugal nos próximos tempos. Havia que tomar mais uma grande e difícil decisão no campo pessoal: o regresso definitivo do Pedro a Portugal. Depois de várias hipóteses em cima da mesa, optámos pela que nos pareceu mais lógica. O Pedro regressaria a Angola no início de Março e falaria com a sua entidade patronal para rescindir contrato ao final de um mês e vir definitivamente para junto de mim, para em conjunto conseguirmos levar este processo tão desgastante para o casal a bom porto. Assim foi, dia 26 de Março ele aterraria no Porto para ficar.
     Juntos, percorremos todas as etapas que envolvem o processo de uma FIV. A questão da translocação entre os dois cromossomas seria mais um fantasma a ensombrar a nossa vontade. No caso de conseguir engravidar, havia cerca de trinta por cento de hipóteses de ser uma gravidez/feto com problemas. Mas, ainda assim, decidimos avançar. A fé de que tudo correria bem falou mais alto. Depois de semanas de medicação para estimular os níveis de ovulação, com Dufine, Estrofem e injecções com preços proibitivos, os resultados não foram os esperados. É comum, com este tipo de medicação, haver vários óvulos para recolha, oito, nove, ou mais. Eu só consegui ter dois. E desses dois, após a punção e a fertilização com recurso à microinjecção intracitroplasmática, apenas um deles evoluiria normalmente, pelo que no momento da transferência apenas foi transferido esse sobrevivente. As probabilidades de sucesso eram tão ínfimas que, após a transferência, o Professor Alberto Barros foi ter connosco (após a primeira consulta, todo o processo até este momento foi acompanhado por outros dois médicos da sua equipa) e usou uma expressão que me marcou, algo do género "se engravidar, não será um milagre, mas é muito difícil que isso venha a acontecer." 
     Faz parte do papel de um médico não nos dar falsas esperanças e ele cumpriu o seu papel com todo o rigor. Saí da clínica com um misto de esperança - 10% - e de descrença - 90%. Pensar positivo ajudava, pelo que me esforçava por assim ser, mas perante o cenário descrito era difícil. 12 dias de espera, o repouso e todos os cuidados não trouxeram o resultado desejado. A FIV não resultou e não estava grávida. Cerca de cinco mil euros e quatro meses depois, mais um resultado negativo. A esperança começava a morrer aos poucos.
     As FIV nem sempre resultam à primeira - era a expressão mais ouvida por parte daqueles que estavam a par de todo o processo. Ao contrário de muitos casais, que preferem resguardar-se, eu sentia necessidade de falar sobre o assunto com os que me rodeavam, com os mais próximos, pelo que muita gente estava a par do processo. E o que mais me doía era a indiferença de muitos, sobretudo daqueles de quem não esperava tal. Queria falar sobre o assunto, partilhar, ouvir outros testemunhos, ter conhecimento de casos de sucesso, para conseguir manter a esperança. 
     Decididos a repetir o processo, fomos à ecografia de controlo, cerca de um mês depois da FIV. Comigo estava tudo bem. Mas as palavras do médico derrubaram-me por completo. Tanto que penso ter sido mais afectada do que nos momentos anteriores em que fui tomando consciência de toda esta situação. Atendendo ao desenrolar de todo o processo anterior, nomeadamente à muito baixa resposta por parte dos meus ovários a tanta estimulação, ele não nos incentivava a repetir, atendendo a que as probabilidades de sucesso eram tão ínfimas que não aconselhava a "desperdiçar" mais cinco mil euros. Desta vez, a esperança ficou moribunda, em coma profundo. 
     Como se lida com o fim da esperança?   
          
     

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Entre Portugal e Angola, a esperança mantém-se

      Os meses de Janeiro e Fevereiro de 2014 foram de férias, minhas e do Pedro, em Portugal. Decidi preparar-lhe uma surpresa, já que ele viajou mais tarde do que eu de Angola e conhecia Trás-os-Montes apenas em contexto de trabalho. Programei um percurso pelos "Montes Profundos" - expressão que costumo usar regularmente - referindo-me ao mais profundo da região transmontana. Vila Real, Mirandela, Vinhais, Bragança, Miranda do Douro, Mogadouro, Moncorvo, Alfândega da Fé, Vila Nova de Foz Côa e São João da Pesqueira foram algumas das zonas visitadas durante três dias de um Inverno rigoroso, com vento, chuva e nevoeiro por companhias constantes. 
     Namorámos bastante durante estes dias. No subconsciente, a acompanhar-nos, a ideia de que não poderíamos pensar muito no nosso desejo de ano novo, pois o aumento da ansiedade condicionaria a sua concretização, segundo o senso comum.
     Entretanto, logo que cheguei a Portugal, ainda em Janeiro, fiz uma consulta pré-natal, explicando à minha ginecologista o nosso objectivo desde o anterior mês de Novembro. Foram-me prescritas as tradicionais análises específicas para quem quer engravidar, que se revelaram perfeitamente normais, pelo que tudo indicaria que em breve haveria motivos para celebrar.
     Em Março, o Pedro regressou a Angola. Eu continuei em Portugal à espera que o projecto no qual estava integrada em Angola recomeçasse para poder regressar também. Já em anos anteriores houve atrasos consideráveis no seu início, pelo que não me surpreendeu mais um, mais uma ausência no início do ano lectivo que em Angola é nos primeiros dias de Fevereiro. No entanto, este não seria apenas mais um atraso como os anteriores. Os acordos bilaterais Portugal/Angola, entre os respectivos Ministérios dos Negócios Estrangeiros e da Educação haviam cessado em Dezembro de 2013 e o projecto terminara mesmo, sem perspectivas de datas para um novo começo. (Estamos em Julho de 2015, mais de um ano depois, e o mesmo encontra-se quase exclusivamente ainda em papel, apenas com os novos coordenadores no terreno.)
     Perante este novo cenário, o Pedro já em Angola e eu sem perspectivas de regresso, havia que reconsiderar opções e delinear estratégias. Queria voltar a Angola. Estava infeliz em Portugal, quer pela ausência do Pedro, quer pela desmotivação e falta de vontade de regressar ao contexto das escolas portuguesas. Concorri a um horário de substituição temporária de uma docente em atestado médico, com a duração de um mês, período que seria suficiente para tratar do visto de turismo que me permitisse a entrada em Angola, para aí, junto com o Pedro, decidirmos o que fazer no nosso futuro mais próximo.
     No dia 03 de Maio entrava de novo em Angola, com um visto que me permitiria permanecer lá durante três meses; seria o tempo suficiente para tomar decisões em conjunto e continuar a "lutar" pelo nosso desejo. Várias hipóteses foram consideradas, inclusive a realização de entrevistas para duas instituições de educação angolanas, em Benguela e no Lobito. No entanto, o trabalho do Pedro, em regime de itinerância naquele imenso país, não nos permitiria viver efectivamente juntos, ficando mesmo dependentes de viagens de avião para nos podermos ver, tais as distâncias que nos poderiam vir a separar. Não fazia qualquer sentido! Após muitas horas de conversa, de discussão acesa, mesmo, não conseguíamos um consenso. A vontade de ambos era permanecermos juntos, só assim fazia sentido, mas as opções para tal muito poucas e de difícil concretização. 
     Findo o período de autorização de permanência em Angola, em finais de Julho regressei a Portugal. O Pedro regressaria dias depois, também. Entretanto, eu já havia concorrido ao concurso nacional de professores, cá em Portugal, para poder recomeçar o meu percurso nas escolas portuguesas, em Setembro. A tão desejada gravidez continuava a ser uma miragem, pelo que só a permanência em Portugal, para despistagem dos possíveis problemas/causas nos parecia fazer sentido, então.    
     O mês de Agosto de 2014 foi de férias em conjunto, desta vez na praia. O clima de Verão e descontracção seriam favoráveis! Repeti todas as análises, o Pedro também. Tudo estava novamente dentro dos valores normais. Mas, uma vez mais, em Setembro, nenhuma surpresa! 
     O Pedro regressou a Angola em Setembro e eu comecei a trabalhar cá no final desse mês. Avizinhava-se o mais longo período de afastamento entre nós - cerca de três meses! Ficou acordada a minha ida a Angola para passarmos o Natal e passagem de ano juntos. 
     Em Novembro fiz 40 anos. Dias depois, fui a nova consulta e repeti as análises. O objectivo era preparar a minha ida a Angola e fazer novamente medicação para potenciar o período fértil ao máximo. Já anteriormente havia feito ciclos de Dufine, sem resultado. 
     Como presente da minha entrada nos "entas" tive a maior das surpresas: os meus níveis de FSH estavam muito altos, ao nível de uma mulher em pré-menopausa. "Isto significa o quê?" - perguntei eu à médica que me acompanhava na altura. As suas palavras ficaram-me gravadas na mente, de tal forma, que ainda hoje a consigo visualizar a proferi-las: " Significa que se não vier de Angola grávida, em Janeiro, temos de avançar para o plano B ou correrá o risco de não ter óvulos para recolha.". Não entendi bem esta mudança de opinião da médica. Quando fui à primeira consulta, então com 39 anos, ela encarou esta idade como perfeitamente normal para se ter o primeiro filho, tendo-me testemunhado que ela própria havia sido mãe pela primeira vez com essa idade. Como é que no espaço de poucos meses eu poderia não ter óvulos para recolha? Já se afigurando o cenário de recurso à procriação medicamente assistida... "Que exagero!" - pensei na altura. Ainda em Agosto, apenas três meses antes, estava tudo óptimo. A médica estava a ser demasiado radical. 
     Nesta altura, para além da medicação para mim, prescreveu também um suplemento para o Pedro, já que o espermograma que ele havia realizado mostrava baixa mobilidade dos espermatozóides. Foi uma verdadeira epopeia conseguir fazer com que esse medicamento lhe chegasse às mãos. Na altura, ele estava no Lubango, na província do Huíla. Só quem vive estas situações tem consciência do quão difícil é fazer chegar algo às provícncias, em Angola, sobretudo um medicamento que tem de chegar em tempo útil. Na altura, a médica explicou-me uma série de coisas, nomeadamente os factores que afectavam a qualidade/mobilidade dos espermatozóides: o tabaco, o stress e o calor, entre outros. Bingo! Estes três descreviam na perfeição o contexto do Pedro. Foi-me explicado também que o período de renovação do esperma é de cerca de dois meses, pelo que urgia ele mudar alguns comportamentos a tempo de eu ir para junto dele, no final do mês de Dezembro, e o contexto ser diferente, pelo menos no tabaco e nos níveis de stress, já que relativamente ao calor não havia muito a fazer. Deixou de fumar e começou a tomar um suplemento (prescrito para mulheres, mas com efeitos no homem, também - Dikirogene, se não me engano).
     Em vésperas de Natal de 2014 viajei para Angola, novamente. Na mala, para além da minha medicação, muita esperança. O voltarmos a estar juntos no ambiente onde nos conhecemos, no Namibe, o calor e os cheiros de África, a leveza com que lá se vive e a época festiva que se avizinhava enchiam-me de esperança. Seria desta! Quando regressasse ao Inverno português, em Janeiro, viria com o nosso projecto de ano novo em vias de concretização. 
     
Acácias rubras em flor, na Marginal do Namibe, em pleno Dezembro.
     Mas, uma vez mais, o ano novo não trouxe novidades...