Os meses de Janeiro e Fevereiro de 2014 foram de férias, minhas e do Pedro, em Portugal. Decidi preparar-lhe uma surpresa, já que ele viajou mais tarde do que eu de Angola e conhecia Trás-os-Montes apenas em contexto de trabalho. Programei um percurso pelos "Montes Profundos" - expressão que costumo usar regularmente - referindo-me ao mais profundo da região transmontana. Vila Real, Mirandela, Vinhais, Bragança, Miranda do Douro, Mogadouro, Moncorvo, Alfândega da Fé, Vila Nova de Foz Côa e São João da Pesqueira foram algumas das zonas visitadas durante três dias de um Inverno rigoroso, com vento, chuva e nevoeiro por companhias constantes.
Namorámos bastante durante estes dias. No subconsciente, a acompanhar-nos, a ideia de que não poderíamos pensar muito no nosso desejo de ano novo, pois o aumento da ansiedade condicionaria a sua concretização, segundo o senso comum.
Entretanto, logo que cheguei a Portugal, ainda em Janeiro, fiz uma consulta pré-natal, explicando à minha ginecologista o nosso objectivo desde o anterior mês de Novembro. Foram-me prescritas as tradicionais análises específicas para quem quer engravidar, que se revelaram perfeitamente normais, pelo que tudo indicaria que em breve haveria motivos para celebrar.
Em Março, o Pedro regressou a Angola. Eu continuei em Portugal à espera que o projecto no qual estava integrada em Angola recomeçasse para poder regressar também. Já em anos anteriores houve atrasos consideráveis no seu início, pelo que não me surpreendeu mais um, mais uma ausência no início do ano lectivo que em Angola é nos primeiros dias de Fevereiro. No entanto, este não seria apenas mais um atraso como os anteriores. Os acordos bilaterais Portugal/Angola, entre os respectivos Ministérios dos Negócios Estrangeiros e da Educação haviam cessado em Dezembro de 2013 e o projecto terminara mesmo, sem perspectivas de datas para um novo começo. (Estamos em Julho de 2015, mais de um ano depois, e o mesmo encontra-se quase exclusivamente ainda em papel, apenas com os novos coordenadores no terreno.)
Perante este novo cenário, o Pedro já em Angola e eu sem perspectivas de regresso, havia que reconsiderar opções e delinear estratégias. Queria voltar a Angola. Estava infeliz em Portugal, quer pela ausência do Pedro, quer pela desmotivação e falta de vontade de regressar ao contexto das escolas portuguesas. Concorri a um horário de substituição temporária de uma docente em atestado médico, com a duração de um mês, período que seria suficiente para tratar do visto de turismo que me permitisse a entrada em Angola, para aí, junto com o Pedro, decidirmos o que fazer no nosso futuro mais próximo.
No dia 03 de Maio entrava de novo em Angola, com um visto que me permitiria permanecer lá durante três meses; seria o tempo suficiente para tomar decisões em conjunto e continuar a "lutar" pelo nosso desejo. Várias hipóteses foram consideradas, inclusive a realização de entrevistas para duas instituições de educação angolanas, em Benguela e no Lobito. No entanto, o trabalho do Pedro, em regime de itinerância naquele imenso país, não nos permitiria viver efectivamente juntos, ficando mesmo dependentes de viagens de avião para nos podermos ver, tais as distâncias que nos poderiam vir a separar. Não fazia qualquer sentido! Após muitas horas de conversa, de discussão acesa, mesmo, não conseguíamos um consenso. A vontade de ambos era permanecermos juntos, só assim fazia sentido, mas as opções para tal muito poucas e de difícil concretização.
Findo o período de autorização de permanência em Angola, em finais de Julho regressei a Portugal. O Pedro regressaria dias depois, também. Entretanto, eu já havia concorrido ao concurso nacional de professores, cá em Portugal, para poder recomeçar o meu percurso nas escolas portuguesas, em Setembro. A tão desejada gravidez continuava a ser uma miragem, pelo que só a permanência em Portugal, para despistagem dos possíveis problemas/causas nos parecia fazer sentido, então.
O mês de Agosto de 2014 foi de férias em conjunto, desta vez na praia. O clima de Verão e descontracção seriam favoráveis! Repeti todas as análises, o Pedro também. Tudo estava novamente dentro dos valores normais. Mas, uma vez mais, em Setembro, nenhuma surpresa!
O Pedro regressou a Angola em Setembro e eu comecei a trabalhar cá no final desse mês. Avizinhava-se o mais longo período de afastamento entre nós - cerca de três meses! Ficou acordada a minha ida a Angola para passarmos o Natal e passagem de ano juntos.
Em Novembro fiz 40 anos. Dias depois, fui a nova consulta e repeti as análises. O objectivo era preparar a minha ida a Angola e fazer novamente medicação para potenciar o período fértil ao máximo. Já anteriormente havia feito ciclos de Dufine, sem resultado.
Como presente da minha entrada nos "entas" tive a maior das surpresas: os meus níveis de FSH estavam muito altos, ao nível de uma mulher em pré-menopausa. "Isto significa o quê?" - perguntei eu à médica que me acompanhava na altura. As suas palavras ficaram-me gravadas na mente, de tal forma, que ainda hoje a consigo visualizar a proferi-las: " Significa que se não vier de Angola grávida, em Janeiro, temos de avançar para o plano B ou correrá o risco de não ter óvulos para recolha.". Não entendi bem esta mudança de opinião da médica. Quando fui à primeira consulta, então com 39 anos, ela encarou esta idade como perfeitamente normal para se ter o primeiro filho, tendo-me testemunhado que ela própria havia sido mãe pela primeira vez com essa idade. Como é que no espaço de poucos meses eu poderia não ter óvulos para recolha? Já se afigurando o cenário de recurso à procriação medicamente assistida... "Que exagero!" - pensei na altura. Ainda em Agosto, apenas três meses antes, estava tudo óptimo. A médica estava a ser demasiado radical.
Nesta altura, para além da medicação para mim, prescreveu também um suplemento para o Pedro, já que o espermograma que ele havia realizado mostrava baixa mobilidade dos espermatozóides. Foi uma verdadeira epopeia conseguir fazer com que esse medicamento lhe chegasse às mãos. Na altura, ele estava no Lubango, na província do Huíla. Só quem vive estas situações tem consciência do quão difícil é fazer chegar algo às provícncias, em Angola, sobretudo um medicamento que tem de chegar em tempo útil. Na altura, a médica explicou-me uma série de coisas, nomeadamente os factores que afectavam a qualidade/mobilidade dos espermatozóides: o tabaco, o stress e o calor, entre outros. Bingo! Estes três descreviam na perfeição o contexto do Pedro. Foi-me explicado também que o período de renovação do esperma é de cerca de dois meses, pelo que urgia ele mudar alguns comportamentos a tempo de eu ir para junto dele, no final do mês de Dezembro, e o contexto ser diferente, pelo menos no tabaco e nos níveis de stress, já que relativamente ao calor não havia muito a fazer. Deixou de fumar e começou a tomar um suplemento (prescrito para mulheres, mas com efeitos no homem, também - Dikirogene, se não me engano).
Em vésperas de Natal de 2014 viajei para Angola, novamente. Na mala, para além da minha medicação, muita esperança. O voltarmos a estar juntos no ambiente onde nos conhecemos, no Namibe, o calor e os cheiros de África, a leveza com que lá se vive e a época festiva que se avizinhava enchiam-me de esperança. Seria desta! Quando regressasse ao Inverno português, em Janeiro, viria com o nosso projecto de ano novo em vias de concretização.
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| Acácias rubras em flor, na Marginal do Namibe, em pleno Dezembro. |
Mas, uma vez mais, o ano novo não trouxe novidades...