quinta-feira, 27 de agosto de 2015

O sonho morreu

O meu Tesourinho já partiu, sem ter tido tempo nem oportunidade de brilhar.
Na consulta das dez semanas, o seu coraçãozinho, ouvido às sete semanas pela primeira vez, já não batia. 
O sonho morreu e com ele a vontade de continuar a falar/escrever sobre isso.
Até um dia.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Junho, mês das festas!

     Aqui pela minha Bila - Vila Real - o mês de Junho é o mês das festas. É festa o mês inteiro, daí ser o meu preferido. Desde 2010 que não passava este período em Vila Real, pelo que estava ansiosa e feliz por este ano poder reviver tradições e hábitos característicos desta altura. O Santo António é o santo padroeiro da cidade, pelo que logo desde o início do mês começam a instalar-se em pleno centro da cidade os típicos carrosséis e barracas das romarias, mais os gelados e algodão doce e as farturas, claro! 
     Apesar de Junho coincidir também com o final do ano lectivo, com testes e exames e notas e reuniões e todo o trabalho inerente à conclusão de mais um ano de trabalho junto dos alunos, à noite tinha de sobrar sempre um tempinho para ir "dar uma volta ao Sto António". É da praxe! Assim, estes dias passaram a correr, atarefados, entre a papelada e as burocracias da escola, durante o dia, e o colorido das voltinhas na feira, à noite.  
     Mesmo sendo o Sto António o padroeiro da Bila, o São João e o São Pedro não lhe ficam atrás, pelos aglomerados de população, pela animação e pelo colorido que conferem à cidade por esta altura. Sendo uma comemoração recente, na noite de São João quase todos os lojistas do centro histórico da cidade montam uma banca e servem sardinhas e caldo verde a amigos e clientes do momento. As ruas ficam apinhadas de mesas improvisadas, tornando-se difícil circular. Os sons da música popular, o cheiro a sardinha assada e a manjerico misturam-se com as gargalhadas animadas pela sangria e com os pés de dança ao som do bailarico. Dancei que me fartei, como não fazia há anos!
     Faltava apenas o S. Pedro, a minha noite preferida das três que homenageiam os santos populares. É a feira das cuecas e do barro preto de Bisalhães, apesar de pelas ruas da cidade se poder comprar de tudo um pouco nas inúmeras barracas e tendas que se espalham pelo centro. Iria jogar ao panelo, depois de anos sem o fazer. Iria comprar cuecas para o ano inteiro - assim dita a tradição. Iria. Mas não fui!
     No dia 26 de Junho, sexta-feira, pela manhã, depois de um atraso do período desde o domingo anterior, e depois de muita insistência por parte do Pedro, decidi fazer um teste de gravidez. Há dias que sentia imensas náuseas. Por várias vezes, um cansaço inexplicável. Tudo sintomas que associava às doses enormes de medicação que circulava pelo meu organismo, assim como ao stress de final de ano lectivo, com tanto trabalho a realizar num tão curto período de tempo. As idas e vindas para o Marco de Canaveses, os cerca de 120 Km diários também estariam a acusar cansaço nesta fase final do ano. Por isso, nem por sombras associava estes sintomas a uma eventual gravidez. Pelo contrário. Já havia tido atrasos do período bem mais consideráveis, que me levaram a fazer testes de gravidez e a desilusões umas atrás das outras. Recusava-me a fazer mais um para não sofrer mais uma. Mas o Pedro havia comprado um na véspera e eu prometera que o faria na manhã seguinte.
     Yeeeeeessssssssssssssssss!!!!!!!
     Depois de anos de tentativas e fracassos, depois de um sem número de testes realizados, eis que o resultado era GRÁVIDA! GRÁÁÁÁÁÁÁVIÍIIIIIIDAAAAAAAA!!!!! 
     Nem queria acreditar. O Pedro estava na cozinha a tomar o pequeno-almoço. Eu não tinha serviço na escola naquele dia. Cheguei à mesa da cozinha e mostrei-lhe o teste. Não conseguia falar! Demos um abraço que substituiu qualquer palavra. O tesouro que tanto ambicionávamos estava ali, num pequeno baú dentro de mim!
     Já não houve festa, já não houve panelo nem cueca, pois entretanto liguei para o médico para marcar consulta, logo para a segunda-feira seguinte, para confirmar o resultado do teste descartável, e este aconselhou repouso absoluto até ele me observar.
     Mês de Junho, mês de festas, mês de santos padroeiros, mês de médicos milagreiros, mês de sonhos concretizados! 
      
     

     

A consulta "milagreira"

     No dia 28 de Maio, pelas 14.00h, estávamos na Rua Fernão Magalhães, no Porto, para a nossa consulta. 
     Penso que, por muito que tente, não conseguirei ser fiel nesta descrição ao que se passou dentro daquele consultório. A Vânia, a pessoa que me havia dado este contacto, já me havia dito que este médico era muito "particular, peculiar", pelo que já estávamos à espera de encontrar alguém com um perfil especial. Assim foi. O Dr. Cipriano é mais do que um médico - palavras suas - é quase um faz-tudo. Cerca de metade do tempo que passámos no seu consultório - cerca de uma hora - foi ocupado a falar de si, do seu percurso, dos seus "feitos" antes e após o seu diploma em medicina. Por momentos, perguntei-me o que estava ali a fazer. Fui lá para contar a nossa história, para tentar perceber se ele tinha alguma solução mágica para o nosso caso e o senhor não falava se não dele. Memória prodigiosa, de facto. Desfiava factos históricos intercalados com os seus próprios feitos a uma velocidade e assertividade impressionantes. Isto com ligeiros interregnos para nos mostrar na sua página de Facebook, sempre aberta no computador na sua secretária (o mesmo aconteceria em consultas posteriores), os "seus" bebés, assim como posts sobre política e economia - os mais polémicos - ou fotografias de "amigas" vistosas que comentava connosco em voz alta. Surreal! 
     Cerca de meia hora após a nossa entrada no consultório, conseguimos pô-lo a para do nosso percurso nesta nossa "caça ao tesouro". Falámos da FIV recente e mostrámos-lhe toda a panóplia de análises e exames, meus e do Pedro, realizados até então. Referimos-lhe o "veredicto" do médico da clínica que nos acompanhara anteriormente - não aconselhava a insistir, pois as probabilidades de sucesso eram ínfimas, quase nulas. O Dr. Cipriano limitou-se a expressar um "vamos ver".
     Deslocámo-nos para uma sala contígua para realizar a ecografia, aquela que o poria a par da real situação dos meus ovários e útero. Após o exame, as suas palavras foram, textualmente "os seus ovários estão uma porcaria, mas nós vamos resolver isso!". Nem queria acreditar! Havia esperança! Pedi-lhe abertamente para não me dar falsas esperanças caso fosse isso o que estava a observar, para ser o mais directo e sincero possível. Mesmo a questão da translocação dos meus cromossomas foi relativizada, pelo facto de esta ser equilibrada. Não constituía quaquer problema, ao contrário do que nos haviam dito até então.
     De volta ao consultório, momento da prescrição da medicação aconselhada, para mim e para o Pedro. No meu caso, nada de diferente dos medicamentos prescritos anteriormente: Dufine, Estrofem e Puregon, para além de um outro, Meteformina, se não me engano, para controlar os níveis de açúcar passíveis de serem alterados pela restante medicação. O que era novidade eram as doses e o timings durante o ciclo. Dupliquei a toma do Dufine, passei de um comprimido diário para dois, e em diferentes momentos do ciclo. O Dr. Cipriano preencheu um calendário preparado para o efeito com os dias certos para a toma da medicação, para não haver engano possível. Pelo meio, a fase do "TPC", o período fértil, em que devíamos "trabalhar" dia sim, dia não. Nada de novo ou transcendente, afinal.
     À saída do consultório conseguia sorrir. Não me tinha sido prescrita medicação diferente da que já havia feito nem me tinha sido dada nenhuma outra "mezinha especial". Mas o facto é que saí dali com a esperança renovada. 
     Nos dias seguintes, na escola, foi esta a expressão que mais utilizei: voltei a ter esperança!
     

terça-feira, 14 de julho de 2015

O médico que "faz milagres"

     O dia 18 de Maio, dia da ecografia de controlo após a FIV, foi particularmente difícil. Atendendo ao desfecho de todo o processo, confesso que já temia ouvir por parte do médico o que efectivamente ouvi, mas a diferença entre imaginar que pudesse ouvir essas palavras e ouvi-las na realidade foi abismal, pelo menos no que respeita ao seu efeito, à forma como estilhaçou em mim a réstia de esperança que ainda se mantinha.
     Os dias seguintes foram passados numa luta entre a vontade de aterrar no sofá, à espera que a tempestade passasse e tudo isto não tivesse passado de um sonho mau, e a necessidade de reagir, de acordar de manhã e fazer os sessenta quilómetros diários para ir para a escola, colocar-me em frente de turmas de trinta adolescentes que precisam de alguém enérgico e motivado à sua frente para a motivação deles se manifestar, também. É tão difícil ser professor/actor em momentos em que a vontade é a de estar no fundinho da sala, em silêncio, como mero espectador passivo, à espera que a aula passe...
     É óbvio que a meu semblante não enganava, o meu olhar deixava transparecer os estilhaços da alma. Na sala de professores, alguns mais próximos e mais "ousados" iam timidamente perguntando porquê. A minha resposta era invariavelmente "não quero falar para não chorar", mas ia falando, por entre lágrimas que teimosamente escapavam. Num destes momentos, entrou a Vânia, uma colega do Porto, com a qual nem tinha grandes conversas, mas que se foi apercebendo da situação, como todos os que se sentavam à mesma mesa que eu durante os intervalos. Interrompe-nos para dizer: "há um médico no Porto conhecido por fazer milagres!". Quando ela o disse, pensei de imediato que se referia àquele que me havia acompanhado, pois as referências eram tão boas, inclusive tinha sido ele o "autor" de algumas gravidezes de colegas lá da escola. É impressionante o número de casos de casais próximos que tiveram ou têm de recorrer à PMA para concretizarem a vontade de serem pais. Nunca imaginei que aquilo que é a lei natural da vida se revelasse tão cheio de labirintos para tanta gente. Sem grande entusiasmo, pedi-lhe o número de telefone. Não tinha mais nada a perder. Ela continuou referindo o caso de uma amiga, médica no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, que tinha recorrido a este "milagreiro" para engravidar, e já ia na terceira gravidez. Confesso que não fiquei muito entusiasmada, mas ela ficou de tentar obter o contacto da clínica para me dar. Fomos para a aula e horas depois ela enviou-me um mail com os dados. Referiu, também, que a clínica tinha uma página no Facebook, pelo que poderia tentar obter mais referências.
     Clínica de São Cipriano - Dr. Cipriano Oliveira - Porto. Num primeiro momento, associei este nome, São Cipriano, ao mundo do oculto, do sobrenatural, pela associação ao Livro de S. Cipriano, imagine-se! A página do Facebook, que tive curiosidade em visitar, está muito "familiar", aliás como o consultório, como descreverei a seguir, repleta de fotografias e vídeos do Dr. Cipriano no momento em que traz os "seus rebentinhos" ao mundo. Marquei consulta para dia 28 de Maio, daí a uma semana. 
     Dia 25 de Maio foi o primeiro dia do segundo ciclo menstrual após a FIV, pelo que no dia da consulta estava no quarto dia do ciclo. Segundo o que li, só é aconselhável repetir uma FIV cerca de cinco ciclos depois da última, pelo que encarei esta consulta como uma mera "apresentação do caso" ao médico para ouvir o seu veredicto. No momento de sair da Vila Real, a consulta era ao meio-dia, pelo que esperava-nos cerca de uma hora de viagem, tive mais um "piripaque",  dos tão frequentes ultimamente. Já à saída de Vila Real, voltei para trás. Não queria ir, queria desistir. Não queria ouvir novamente um "não". Chorei, "esperneei", disparatei com o Pedro. Entre soluços, só repetia que queria desistir e aceitar o que a Mãe Natureza havia reservado para nós. O Pedro deixou-me desabafar, deixou que toda esta tensão se esvaísse entre lágrimas e soluços e foi peremptório, uma vez mais: vamos! À saída de Vila Real ligou para a clínica, pois não conseguiríamos chegar à hora marcada e pediu para adiar a consulta para a tarde.
     Às 14 horas desse dia, em plena Avenida Fernão Magalhães, encontrámos um letreiro modesto a identificar a clínica. No interior, um primeiro andar que mais parecia uma acolhedora casa de família, sobretudo quando comparada com a clínica que havia frequentado nos últimos meses. Imensas fotografias, nos móveis e nas paredes, dos vários rebentinhos "feitos" com recurso medicação do Dr. Cipriano. Enquanto éramos atendidos na recepção, pela Dª Esmeralda, a "faz tudo" da clínica, entrou o médico e nós fomos os seus primeiros pacientes da tarde.
     Atendendo à especificidade e particularidade desta consulta, merece um post inteiramente dedicado a ela, pelo que será o próximo. Por hoje, apenas mais uma pequena reflexão. Mesmo para quem não é crente nem acredita em milagres de qualquer espécie, em momentos de desalento e descrença na ciência, não se descarta qualquer hipótese. Pelo que adianto apenas que saí daquele consultório com a esperança renovada. E isso, só por si, fez-me sorrir novamente.          

terça-feira, 7 de julho de 2015

Um 2015 cheio de surpresas, nem sempre boas

     Com a entrada em 2015, trouxe comigo de Angola não uma gravidez, mas uma valente gastroenterite. Tive de recorrer ao hospital, no dia 04 de Janeiro, pois não conseguia manter qualquer alimento no estômago, com vómitos e diarreia constantes. No hospital, alertei para a possibilidade de poder estar grávida, para assim ajustarem a medicação. Não estava. Mais uma desilusão.
     Atendendo às últimas palavras da minha ginecologista, "se não vier grávida em Janeiro, passamos para o plano B...", não havia muito mais a adiar. Eu ainda tentei protelar uns dias, já que o Pedro viria em Fevereiro e eu queria esperar por ele para irmos a uma clínica especializada no acompanhamento de casais inférteis. Mas ele - e hoje dou graças por o ter feito - decidiu não me dar ouvidos e marcou ele a consulta, a partir de Angola. Depois de alguma pesquisa na Internet, na busca de opiniões e sugestões, e com a concordância da minha ginecologista, essa consulta foi marcada para a Clínica do Prof. Alberto Barros, no Porto, consensualmente referida como uma das melhores no acompanhamento de casais como nós.
     Ainda em Janeiro, e sozinha, fui à primeira consulta. A primeira pergunta do Prof. Alberto Barros foi precisamente o porquê de ir sozinha, já que é normal ser o casal a deslocar-se em conjunto. Em Portugal, não é permitido o recurso à procriação medicamente assistida a mulheres solteiras, pelo que não estranhei a pergunta do médico, na tentativa de salvaguardar esta questão. A panóplia de exames, meus e do Pedro, que então lhe apresentei eliminaram qualquer suspeita. 
     Desde Agosto que vínhamos a ser acompanhados nos serviços de apoio à fertilidade do Hospital de Vila Real, onde realizámos vários exames. No entanto, em Novembro, depois de ter ultrapassado a barreira dos "39 anos e 364 dias", as regras mudariam, e o acesso às técnicas da PMA passaria a ser-nos vedado. E pensando bem, se no nosso caso o factor tempo era determinante, atendendo a que eu já praticamente não ovulava - o que se agravaria com o passar do tempo - estar dependente do SNS também não seria a melhor das opções, pelos meses de espera. Apenas um pequeno exemplo do que digo: ainda em Vila Real, um dos exames realizados foi aos cariótipos. Repeti este exame, por prescrição do Prof. Alberto Barros, em Fevereiro, no serviço de genética da Faculdade de Medicina do Hospital de S. João, no Porto. Cerca de duzentos euros (o primeiro, em Vila Real, foi gratuito) e quinze dias depois, o resultado estaria pronto. E com mais surpresas, que referirei a seguir. Os resultados - idênticos - do exame realizado em Vila Real só ficariam prontos meses depois, já em Abril, precisamente uma semana depois de ter concluído todo o processo para uma FIV na clínica particular, no Porto, altura em que fui convocada para uma consulta nos serviços de genética do Hospital de Vila Real. 
     Depois de tudo o que já tínhamos vindo a ter como entraves à concretização do nosso desejo, eis que surge mais uma surpresa. Resultado do exame aos cariótipos: os do Pedro perfeitamente normais, já os meus, "translocação, aparentemente equilibrada, entre os cromossomas 5 e 9". O que é que isto significava? Até ao momento de ida à consulta, tentei pesquisar na net, mas não conseguia nenhuma informação conclusiva sobre o que isto significava, apenas nomes estranhos de doenças ainda mais estranhas associadas a deficiências cromossomáticas. Decidi deixar de procurar ou ficaria louca com tanta informação e tão má.
     Aquando da primeira consulta na clínica do Prof. Alberto Barros, a solução mais aconselhável para o nosso problema foi a do recurso a uma FIV - Fertilização in vitro. Seria esse o nosso próximo passo. O Pedro regressou de Angola em Fevereiro e o processo passou a desenrolar-se já com os dois juntos. No entanto, para que todo este processo pudesse ser concretizado da melhor forma, seria necessária a presença do Pedro em Portugal nos próximos tempos. Havia que tomar mais uma grande e difícil decisão no campo pessoal: o regresso definitivo do Pedro a Portugal. Depois de várias hipóteses em cima da mesa, optámos pela que nos pareceu mais lógica. O Pedro regressaria a Angola no início de Março e falaria com a sua entidade patronal para rescindir contrato ao final de um mês e vir definitivamente para junto de mim, para em conjunto conseguirmos levar este processo tão desgastante para o casal a bom porto. Assim foi, dia 26 de Março ele aterraria no Porto para ficar.
     Juntos, percorremos todas as etapas que envolvem o processo de uma FIV. A questão da translocação entre os dois cromossomas seria mais um fantasma a ensombrar a nossa vontade. No caso de conseguir engravidar, havia cerca de trinta por cento de hipóteses de ser uma gravidez/feto com problemas. Mas, ainda assim, decidimos avançar. A fé de que tudo correria bem falou mais alto. Depois de semanas de medicação para estimular os níveis de ovulação, com Dufine, Estrofem e injecções com preços proibitivos, os resultados não foram os esperados. É comum, com este tipo de medicação, haver vários óvulos para recolha, oito, nove, ou mais. Eu só consegui ter dois. E desses dois, após a punção e a fertilização com recurso à microinjecção intracitroplasmática, apenas um deles evoluiria normalmente, pelo que no momento da transferência apenas foi transferido esse sobrevivente. As probabilidades de sucesso eram tão ínfimas que, após a transferência, o Professor Alberto Barros foi ter connosco (após a primeira consulta, todo o processo até este momento foi acompanhado por outros dois médicos da sua equipa) e usou uma expressão que me marcou, algo do género "se engravidar, não será um milagre, mas é muito difícil que isso venha a acontecer." 
     Faz parte do papel de um médico não nos dar falsas esperanças e ele cumpriu o seu papel com todo o rigor. Saí da clínica com um misto de esperança - 10% - e de descrença - 90%. Pensar positivo ajudava, pelo que me esforçava por assim ser, mas perante o cenário descrito era difícil. 12 dias de espera, o repouso e todos os cuidados não trouxeram o resultado desejado. A FIV não resultou e não estava grávida. Cerca de cinco mil euros e quatro meses depois, mais um resultado negativo. A esperança começava a morrer aos poucos.
     As FIV nem sempre resultam à primeira - era a expressão mais ouvida por parte daqueles que estavam a par de todo o processo. Ao contrário de muitos casais, que preferem resguardar-se, eu sentia necessidade de falar sobre o assunto com os que me rodeavam, com os mais próximos, pelo que muita gente estava a par do processo. E o que mais me doía era a indiferença de muitos, sobretudo daqueles de quem não esperava tal. Queria falar sobre o assunto, partilhar, ouvir outros testemunhos, ter conhecimento de casos de sucesso, para conseguir manter a esperança. 
     Decididos a repetir o processo, fomos à ecografia de controlo, cerca de um mês depois da FIV. Comigo estava tudo bem. Mas as palavras do médico derrubaram-me por completo. Tanto que penso ter sido mais afectada do que nos momentos anteriores em que fui tomando consciência de toda esta situação. Atendendo ao desenrolar de todo o processo anterior, nomeadamente à muito baixa resposta por parte dos meus ovários a tanta estimulação, ele não nos incentivava a repetir, atendendo a que as probabilidades de sucesso eram tão ínfimas que não aconselhava a "desperdiçar" mais cinco mil euros. Desta vez, a esperança ficou moribunda, em coma profundo. 
     Como se lida com o fim da esperança?   
          
     

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Entre Portugal e Angola, a esperança mantém-se

      Os meses de Janeiro e Fevereiro de 2014 foram de férias, minhas e do Pedro, em Portugal. Decidi preparar-lhe uma surpresa, já que ele viajou mais tarde do que eu de Angola e conhecia Trás-os-Montes apenas em contexto de trabalho. Programei um percurso pelos "Montes Profundos" - expressão que costumo usar regularmente - referindo-me ao mais profundo da região transmontana. Vila Real, Mirandela, Vinhais, Bragança, Miranda do Douro, Mogadouro, Moncorvo, Alfândega da Fé, Vila Nova de Foz Côa e São João da Pesqueira foram algumas das zonas visitadas durante três dias de um Inverno rigoroso, com vento, chuva e nevoeiro por companhias constantes. 
     Namorámos bastante durante estes dias. No subconsciente, a acompanhar-nos, a ideia de que não poderíamos pensar muito no nosso desejo de ano novo, pois o aumento da ansiedade condicionaria a sua concretização, segundo o senso comum.
     Entretanto, logo que cheguei a Portugal, ainda em Janeiro, fiz uma consulta pré-natal, explicando à minha ginecologista o nosso objectivo desde o anterior mês de Novembro. Foram-me prescritas as tradicionais análises específicas para quem quer engravidar, que se revelaram perfeitamente normais, pelo que tudo indicaria que em breve haveria motivos para celebrar.
     Em Março, o Pedro regressou a Angola. Eu continuei em Portugal à espera que o projecto no qual estava integrada em Angola recomeçasse para poder regressar também. Já em anos anteriores houve atrasos consideráveis no seu início, pelo que não me surpreendeu mais um, mais uma ausência no início do ano lectivo que em Angola é nos primeiros dias de Fevereiro. No entanto, este não seria apenas mais um atraso como os anteriores. Os acordos bilaterais Portugal/Angola, entre os respectivos Ministérios dos Negócios Estrangeiros e da Educação haviam cessado em Dezembro de 2013 e o projecto terminara mesmo, sem perspectivas de datas para um novo começo. (Estamos em Julho de 2015, mais de um ano depois, e o mesmo encontra-se quase exclusivamente ainda em papel, apenas com os novos coordenadores no terreno.)
     Perante este novo cenário, o Pedro já em Angola e eu sem perspectivas de regresso, havia que reconsiderar opções e delinear estratégias. Queria voltar a Angola. Estava infeliz em Portugal, quer pela ausência do Pedro, quer pela desmotivação e falta de vontade de regressar ao contexto das escolas portuguesas. Concorri a um horário de substituição temporária de uma docente em atestado médico, com a duração de um mês, período que seria suficiente para tratar do visto de turismo que me permitisse a entrada em Angola, para aí, junto com o Pedro, decidirmos o que fazer no nosso futuro mais próximo.
     No dia 03 de Maio entrava de novo em Angola, com um visto que me permitiria permanecer lá durante três meses; seria o tempo suficiente para tomar decisões em conjunto e continuar a "lutar" pelo nosso desejo. Várias hipóteses foram consideradas, inclusive a realização de entrevistas para duas instituições de educação angolanas, em Benguela e no Lobito. No entanto, o trabalho do Pedro, em regime de itinerância naquele imenso país, não nos permitiria viver efectivamente juntos, ficando mesmo dependentes de viagens de avião para nos podermos ver, tais as distâncias que nos poderiam vir a separar. Não fazia qualquer sentido! Após muitas horas de conversa, de discussão acesa, mesmo, não conseguíamos um consenso. A vontade de ambos era permanecermos juntos, só assim fazia sentido, mas as opções para tal muito poucas e de difícil concretização. 
     Findo o período de autorização de permanência em Angola, em finais de Julho regressei a Portugal. O Pedro regressaria dias depois, também. Entretanto, eu já havia concorrido ao concurso nacional de professores, cá em Portugal, para poder recomeçar o meu percurso nas escolas portuguesas, em Setembro. A tão desejada gravidez continuava a ser uma miragem, pelo que só a permanência em Portugal, para despistagem dos possíveis problemas/causas nos parecia fazer sentido, então.    
     O mês de Agosto de 2014 foi de férias em conjunto, desta vez na praia. O clima de Verão e descontracção seriam favoráveis! Repeti todas as análises, o Pedro também. Tudo estava novamente dentro dos valores normais. Mas, uma vez mais, em Setembro, nenhuma surpresa! 
     O Pedro regressou a Angola em Setembro e eu comecei a trabalhar cá no final desse mês. Avizinhava-se o mais longo período de afastamento entre nós - cerca de três meses! Ficou acordada a minha ida a Angola para passarmos o Natal e passagem de ano juntos. 
     Em Novembro fiz 40 anos. Dias depois, fui a nova consulta e repeti as análises. O objectivo era preparar a minha ida a Angola e fazer novamente medicação para potenciar o período fértil ao máximo. Já anteriormente havia feito ciclos de Dufine, sem resultado. 
     Como presente da minha entrada nos "entas" tive a maior das surpresas: os meus níveis de FSH estavam muito altos, ao nível de uma mulher em pré-menopausa. "Isto significa o quê?" - perguntei eu à médica que me acompanhava na altura. As suas palavras ficaram-me gravadas na mente, de tal forma, que ainda hoje a consigo visualizar a proferi-las: " Significa que se não vier de Angola grávida, em Janeiro, temos de avançar para o plano B ou correrá o risco de não ter óvulos para recolha.". Não entendi bem esta mudança de opinião da médica. Quando fui à primeira consulta, então com 39 anos, ela encarou esta idade como perfeitamente normal para se ter o primeiro filho, tendo-me testemunhado que ela própria havia sido mãe pela primeira vez com essa idade. Como é que no espaço de poucos meses eu poderia não ter óvulos para recolha? Já se afigurando o cenário de recurso à procriação medicamente assistida... "Que exagero!" - pensei na altura. Ainda em Agosto, apenas três meses antes, estava tudo óptimo. A médica estava a ser demasiado radical. 
     Nesta altura, para além da medicação para mim, prescreveu também um suplemento para o Pedro, já que o espermograma que ele havia realizado mostrava baixa mobilidade dos espermatozóides. Foi uma verdadeira epopeia conseguir fazer com que esse medicamento lhe chegasse às mãos. Na altura, ele estava no Lubango, na província do Huíla. Só quem vive estas situações tem consciência do quão difícil é fazer chegar algo às provícncias, em Angola, sobretudo um medicamento que tem de chegar em tempo útil. Na altura, a médica explicou-me uma série de coisas, nomeadamente os factores que afectavam a qualidade/mobilidade dos espermatozóides: o tabaco, o stress e o calor, entre outros. Bingo! Estes três descreviam na perfeição o contexto do Pedro. Foi-me explicado também que o período de renovação do esperma é de cerca de dois meses, pelo que urgia ele mudar alguns comportamentos a tempo de eu ir para junto dele, no final do mês de Dezembro, e o contexto ser diferente, pelo menos no tabaco e nos níveis de stress, já que relativamente ao calor não havia muito a fazer. Deixou de fumar e começou a tomar um suplemento (prescrito para mulheres, mas com efeitos no homem, também - Dikirogene, se não me engano).
     Em vésperas de Natal de 2014 viajei para Angola, novamente. Na mala, para além da minha medicação, muita esperança. O voltarmos a estar juntos no ambiente onde nos conhecemos, no Namibe, o calor e os cheiros de África, a leveza com que lá se vive e a época festiva que se avizinhava enchiam-me de esperança. Seria desta! Quando regressasse ao Inverno português, em Janeiro, viria com o nosso projecto de ano novo em vias de concretização. 
     
Acácias rubras em flor, na Marginal do Namibe, em pleno Dezembro.
     Mas, uma vez mais, o ano novo não trouxe novidades...     
    
    

terça-feira, 30 de junho de 2015

Início da nossa "Caça ao Tesouro"

    Com tantas ideias na cabeça, é difícil encontrar um fio condutor e começar a colocá-las de forma objectiva e coerente em palavras.
     Nos últimos meses, tenho lido imensos comentários em blogues sobre assuntos diversos, todos eles com um "mega tema" em comum - a maternidade. É também esse o motivo principal que me leva a, finalmente, sentar-me em frente ao computador e deixar que o emaranhado de ideias que povoam o meu cérebro comece a tomar forma de testemunho e partilha com outras mulheres com os mesmos anseios, dúvidas e dificuldades que eu tenho vivenciado nos últimos anos em busca do MeuTesourinho. 
     Pois é, tenho 40 anos e desde há muitos - demasiados - que anseio ser mãe. Mas do sonho à realidade, o percurso é (para algumas mulheres/casais) sinuoso, cheio de surpresas, de desvios que nos levam para labirintos onde nos perdemos pelo desânimo, pela dor, pela revolta, pela dificuldade em visualizar aquela luzinha que nos conduz à porta de saída, ao final do túnel.
     A vida pessoal e profissional adiou para os 40 o contexto ideal para a concretização desse desejo de sempre. Nunca me passou pela cabeça que vir a ser mãe não fosse algo que seguisse "a ordem natural das coisas" e viesse a acontecer de forma natural: desejado, programado, concretizado. Mas não foi/é bem assim...
     Por uma questão de coerência para quem vier a ler estas palavras, vou recuar algum tempo até ao momento em que este último labirinto começou a ser trilhado. Houve outro antes, mas é sobre este que faz sentido partilhar a nossa experiência com quem possa a estar a viver algo semelhante.

     Novembro de 2013, Namibe, Angola



    Desde 2011 que estava em Angola, num projecto da Cooperação Portuguesa, a trabalhar numa escola de formação de professores (o Pedro, que conheci em Angola, vivia lá há muito mais tempo). Adorava o que fazia, adorava trabalhar e viver no Namibe, sentia que poderia ficar ali para sempre.
     Há muito que confidenciava a quem me era mais próximo que queria ser mãe, mas que as condições para tal nunca estavam reunidas, por vários e diferentes factores. E a concretização dessa vontade ia sendo posta de parte, adiada. 
     Fiz 39 anos por esses dias e ouvia regularmente, por parte do Pedro, as palavras "não achas que está na hora?". Pensar em ter uma criança naquele contexto, em tantos aspectos ainda de país de terceiro mundo, sobretudo no Namibe e especialmente nos cuidados de saúde, ou então equacionar abandonar o projecto/Angola eram duas ideias que insistia em não amadurecer. Ia adiando e adiando... Até que aos 39 anos, um "empurrão" do Pedro e de uma amiga próxima, a Cristina, fez-me tomar a decisão. Sim, era chegada a hora! Daí a um mês viria para Portugal de férias e caso viesse grávida, o regresso a Angola seria reconsiderado.

     Em vésperas de Natal de 2013 viajei para Portugal. E não, não vinha grávida. Muito pelo contrário. Começariam a surgir as surpresas a partir dessa altura. É esse percurso que me proponho partilhar com todos aqueles - homens e mulheres - ansiosos por serem pais e cujo processo se revela uma verdadeira caça ao tesouro!