quinta-feira, 27 de agosto de 2015

O sonho morreu

O meu Tesourinho já partiu, sem ter tido tempo nem oportunidade de brilhar.
Na consulta das dez semanas, o seu coraçãozinho, ouvido às sete semanas pela primeira vez, já não batia. 
O sonho morreu e com ele a vontade de continuar a falar/escrever sobre isso.
Até um dia.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Junho, mês das festas!

     Aqui pela minha Bila - Vila Real - o mês de Junho é o mês das festas. É festa o mês inteiro, daí ser o meu preferido. Desde 2010 que não passava este período em Vila Real, pelo que estava ansiosa e feliz por este ano poder reviver tradições e hábitos característicos desta altura. O Santo António é o santo padroeiro da cidade, pelo que logo desde o início do mês começam a instalar-se em pleno centro da cidade os típicos carrosséis e barracas das romarias, mais os gelados e algodão doce e as farturas, claro! 
     Apesar de Junho coincidir também com o final do ano lectivo, com testes e exames e notas e reuniões e todo o trabalho inerente à conclusão de mais um ano de trabalho junto dos alunos, à noite tinha de sobrar sempre um tempinho para ir "dar uma volta ao Sto António". É da praxe! Assim, estes dias passaram a correr, atarefados, entre a papelada e as burocracias da escola, durante o dia, e o colorido das voltinhas na feira, à noite.  
     Mesmo sendo o Sto António o padroeiro da Bila, o São João e o São Pedro não lhe ficam atrás, pelos aglomerados de população, pela animação e pelo colorido que conferem à cidade por esta altura. Sendo uma comemoração recente, na noite de São João quase todos os lojistas do centro histórico da cidade montam uma banca e servem sardinhas e caldo verde a amigos e clientes do momento. As ruas ficam apinhadas de mesas improvisadas, tornando-se difícil circular. Os sons da música popular, o cheiro a sardinha assada e a manjerico misturam-se com as gargalhadas animadas pela sangria e com os pés de dança ao som do bailarico. Dancei que me fartei, como não fazia há anos!
     Faltava apenas o S. Pedro, a minha noite preferida das três que homenageiam os santos populares. É a feira das cuecas e do barro preto de Bisalhães, apesar de pelas ruas da cidade se poder comprar de tudo um pouco nas inúmeras barracas e tendas que se espalham pelo centro. Iria jogar ao panelo, depois de anos sem o fazer. Iria comprar cuecas para o ano inteiro - assim dita a tradição. Iria. Mas não fui!
     No dia 26 de Junho, sexta-feira, pela manhã, depois de um atraso do período desde o domingo anterior, e depois de muita insistência por parte do Pedro, decidi fazer um teste de gravidez. Há dias que sentia imensas náuseas. Por várias vezes, um cansaço inexplicável. Tudo sintomas que associava às doses enormes de medicação que circulava pelo meu organismo, assim como ao stress de final de ano lectivo, com tanto trabalho a realizar num tão curto período de tempo. As idas e vindas para o Marco de Canaveses, os cerca de 120 Km diários também estariam a acusar cansaço nesta fase final do ano. Por isso, nem por sombras associava estes sintomas a uma eventual gravidez. Pelo contrário. Já havia tido atrasos do período bem mais consideráveis, que me levaram a fazer testes de gravidez e a desilusões umas atrás das outras. Recusava-me a fazer mais um para não sofrer mais uma. Mas o Pedro havia comprado um na véspera e eu prometera que o faria na manhã seguinte.
     Yeeeeeessssssssssssssssss!!!!!!!
     Depois de anos de tentativas e fracassos, depois de um sem número de testes realizados, eis que o resultado era GRÁVIDA! GRÁÁÁÁÁÁÁVIÍIIIIIIDAAAAAAAA!!!!! 
     Nem queria acreditar. O Pedro estava na cozinha a tomar o pequeno-almoço. Eu não tinha serviço na escola naquele dia. Cheguei à mesa da cozinha e mostrei-lhe o teste. Não conseguia falar! Demos um abraço que substituiu qualquer palavra. O tesouro que tanto ambicionávamos estava ali, num pequeno baú dentro de mim!
     Já não houve festa, já não houve panelo nem cueca, pois entretanto liguei para o médico para marcar consulta, logo para a segunda-feira seguinte, para confirmar o resultado do teste descartável, e este aconselhou repouso absoluto até ele me observar.
     Mês de Junho, mês de festas, mês de santos padroeiros, mês de médicos milagreiros, mês de sonhos concretizados! 
      
     

     

A consulta "milagreira"

     No dia 28 de Maio, pelas 14.00h, estávamos na Rua Fernão Magalhães, no Porto, para a nossa consulta. 
     Penso que, por muito que tente, não conseguirei ser fiel nesta descrição ao que se passou dentro daquele consultório. A Vânia, a pessoa que me havia dado este contacto, já me havia dito que este médico era muito "particular, peculiar", pelo que já estávamos à espera de encontrar alguém com um perfil especial. Assim foi. O Dr. Cipriano é mais do que um médico - palavras suas - é quase um faz-tudo. Cerca de metade do tempo que passámos no seu consultório - cerca de uma hora - foi ocupado a falar de si, do seu percurso, dos seus "feitos" antes e após o seu diploma em medicina. Por momentos, perguntei-me o que estava ali a fazer. Fui lá para contar a nossa história, para tentar perceber se ele tinha alguma solução mágica para o nosso caso e o senhor não falava se não dele. Memória prodigiosa, de facto. Desfiava factos históricos intercalados com os seus próprios feitos a uma velocidade e assertividade impressionantes. Isto com ligeiros interregnos para nos mostrar na sua página de Facebook, sempre aberta no computador na sua secretária (o mesmo aconteceria em consultas posteriores), os "seus" bebés, assim como posts sobre política e economia - os mais polémicos - ou fotografias de "amigas" vistosas que comentava connosco em voz alta. Surreal! 
     Cerca de meia hora após a nossa entrada no consultório, conseguimos pô-lo a para do nosso percurso nesta nossa "caça ao tesouro". Falámos da FIV recente e mostrámos-lhe toda a panóplia de análises e exames, meus e do Pedro, realizados até então. Referimos-lhe o "veredicto" do médico da clínica que nos acompanhara anteriormente - não aconselhava a insistir, pois as probabilidades de sucesso eram ínfimas, quase nulas. O Dr. Cipriano limitou-se a expressar um "vamos ver".
     Deslocámo-nos para uma sala contígua para realizar a ecografia, aquela que o poria a par da real situação dos meus ovários e útero. Após o exame, as suas palavras foram, textualmente "os seus ovários estão uma porcaria, mas nós vamos resolver isso!". Nem queria acreditar! Havia esperança! Pedi-lhe abertamente para não me dar falsas esperanças caso fosse isso o que estava a observar, para ser o mais directo e sincero possível. Mesmo a questão da translocação dos meus cromossomas foi relativizada, pelo facto de esta ser equilibrada. Não constituía quaquer problema, ao contrário do que nos haviam dito até então.
     De volta ao consultório, momento da prescrição da medicação aconselhada, para mim e para o Pedro. No meu caso, nada de diferente dos medicamentos prescritos anteriormente: Dufine, Estrofem e Puregon, para além de um outro, Meteformina, se não me engano, para controlar os níveis de açúcar passíveis de serem alterados pela restante medicação. O que era novidade eram as doses e o timings durante o ciclo. Dupliquei a toma do Dufine, passei de um comprimido diário para dois, e em diferentes momentos do ciclo. O Dr. Cipriano preencheu um calendário preparado para o efeito com os dias certos para a toma da medicação, para não haver engano possível. Pelo meio, a fase do "TPC", o período fértil, em que devíamos "trabalhar" dia sim, dia não. Nada de novo ou transcendente, afinal.
     À saída do consultório conseguia sorrir. Não me tinha sido prescrita medicação diferente da que já havia feito nem me tinha sido dada nenhuma outra "mezinha especial". Mas o facto é que saí dali com a esperança renovada. 
     Nos dias seguintes, na escola, foi esta a expressão que mais utilizei: voltei a ter esperança!